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sábado, 30 de agosto de 2008

O QUE NOS É ESSENCIAL?






Vi uma escola de crianças cegas, aprendendo a viver.
Como toda criança normal tem que aprender, e como um adulto nunca conseguiu.
Aprender a aprender. Surpreendente!
Tateavam o globo terrestre e diziam: o mundo é áspero!É redondo!
Tocavam tomates e maças, e admiravam os contornos esféricos ou repolhudos dos produtos de uma feira livre. Admiravam os legumes circulares e, se encontravam cenouras ao meio a achavam-na diferente!E sorriam: os diferentes poderiam estar juntos e percebiam isso com alegria. percebiam que podiam cortar tudo e fazer uma deliciosa sopa. Sentiam que o fogo tem barulho ao ascender e permanecer aceso, que o fogão era alto e o fogo quente e perigoso. Tateavam a panela da sopa. Examinavam com suas mãos as horas e tempo era algo subjetivo: podiam tocar no tempo. E podem! Tocavam maravilhosamente com disciplina invejável aquele aprendizado naquela escola romena, salve engano!
Tocavam as coisas, com a ansiedade na pele, os dedos examinavam coisas, assim como também examinavam as pessoas.
Os toques eram sinceros e ansiosos: queriam apenas perceber-se como eram. apalpavam rostos e pernas, como se nada fossem objeto de desejo e sim resposta ao imaginário existente coletivo.
Examinavam-se sem malícia, e podiam crer que o toque era uma delícia. Que se podia conhecer pessoas pelo cheiro, dispensando qualquer deturpação, dispensando distorção. dispensando ilusão.
Todos eram belos com suas peculiaridades: esféricos, delgados, pardos, branquelos ou cheirosos, com roupas ásperas ou macias. E etc. Todos eram iguais.
Todos eram exatamente iguais por serem de cor alguma. Nada discriminavam tudo admirava, tudo era prazerosa, bela sem ser essencial a visão. Realmente, “o essencial e invisível aos olhos’
O toque era o que revelava a emoção. A ação do encontro era tátil, olfativa,auditiva.Se emocionavam ao acertarem os sons:água!Algo quebrando!Um trem!Todos os sons oferecidos peal hábil professora.
Andavam pelas ruas com bambolês à frente como se fossem bengalas, guiadas também por monitoras. Paravam IMEDIATAMENTE ao ouvirem: stop!
Sonhavam em serem motoristas e cozinheiras, sonhavam comum futuro visível.
Recebiam cartões de aniversario contentes, e ouviam alegremente as musiquinhas dos mesmos inúmeras vezes sorrindo e quiçá lembrando de quem os enviou com muito carinho e saudade.
Aprendiam natação, e penso eu era do que mais gostavam: o contato com a água, envolvia como o mundo visual nos envolve!Eram livres como pássaros ao ar dentro da piscina. maravilhosamente sem fronteiras. Tudo podiam dentro d'água, limitando-se apenas as bordas, que os podiam machucar.
E gritavam e sorriam, e mergulhavam e espalhavam pingos como um chafariz gigante.
Aprendiam a vestirem-se só abotoando casaquinhos com botões enormes.
Se erravam contavam as casas e sorriam:errei! E voltava e refazia a tarefa. Para os cadarços existia uma botinha de cano alto. Tateavam os buracos e transpassavam a cordinha.novamente, se erravam: gritavam simplesmente, e sim e tão somente assim:ERREI! E corrigiam. Errar não era grave...
Aprendiam, sobretudo a usar os dedos para o Braille, seu passaporte para o mundo adulto.
Enfim, crianças absolutamente normais. Totalmente normais. muito mais que perfeitas, e que eram um exemplo de vida, de superação e alegria.
Senti vergonha de mim mesma. De apesar da visão já cansada, e tendo que usar óculos, meu passaporte para a meia-idade, enxergar tão pouco e ser absolutamente cega para muitos.
Sim, pequenos príncipes, o essencial e invisível aos olhos!