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quinta-feira, 8 de julho de 2010

E O MEDICAMENTO PIOROU...

Resumão dos trabalhos apresentados em 2010/1 do curso de Psicologia neste período (2009/2) pela professora Luciana Caliman na Universidade Federal do Espírito Santo.

     Após as discussões e debates em sala, foram apresentados os trabalhos da turma referentes à história na loucura no Espírito Santo.
Os principais assuntos abordados referiam-se aos Hospitais psiquiátricos do Estado: Adauto Botelho e Clínica Santa Izabel e seus funcionários.
No primeiro dia, foi apresentada a Clínica Santa Izabel, localizada no município de Cachoeiro, ao sul do Estado.
Tal Instituição foi apontada como um espaço protegido, do qual pouco se sabe, pouco pode ser explorado e que resiste ao processo de desinstitucionalização da loucura, mantendo em seus leitos, pacientes ditos loucos e atualizando entre seus muros práticas manicomiais como o eletro choque, abuso sexual de internos, más condições de tratamento e até mesmo casos de morte por incompetência administrativa.
A grande questão discutida foi o porquê de se manter tal clínica, uma vez que as denúncias de maus tratos são constantes. O que parece é haver interesses políticos e econômicos que impedem o fechamento da clínica tal como ela se apresenta.
Por meio de pesquisas, foi possível constatar que muito pouco se publica a respeito da clínica, aumentando ainda mais as incertezas quanto ao real modo de funcionamento do lugar.
Discutiu-se, ainda, a falta de uma infra-estrutura mínima de atenção à saúde no Sul do Estado que dê conta de atender aos pacientes da clínica, sendo esta, a única opção para parentes de pessoas com transtornos mentais.
Diante do relato de abusos éticos e políticos contra a vida que ocorrem e se atualizam na Clínica Santa Izabel, levantou-se a questão: onde está a nossa implicação neste processo? A Universidade, os profissionais de saúde, a comunidade deve se sentir responsável pela duração deste modo de saúde mental hospitalizado, manicomial e que não compõe com a vida e com as apostas que fazemos.
Em um segundo momento, foi apresentada a atual situação do quadro de psiquiatras no Espírito Santo. Um breve relato histórico com dados referentes à formação, à atuação e às precariedades desta categoria no Estado foi proposta. Tendo como base entrevistas feitas com dois psiquiatras em atuação, pode-se perceber as fragilidades desta categoria, bem como suas lutas, suas reivindicações e suas propostas de melhorias.
Seguiu-se uma discussão sobre a dislexia como diagnóstico crescente nas escolas estaduais. Apresentou-se argumentos de profissionais da saúde que defendem que a dislexia é um diagnóstico fraco, uma vez que é feito puramente pro exclusão, o que não deveria ser aceito pela categoria médica. Foi apresentada a lei estadual/ São Paulo sobre a dislexia, apontando seus problemas e a gravidade do problema de medicalização da infância que já transborda a medicina e invade os campos jurídicos, tornando-se lei; pretendendo-se verdade inquestionável. O que se produz com a prática excessiva de medicalização é uma paralisação da vida, onde a inclusão (busca por escola, obtenção de remédios) é alcançada por meio da exclusão (diagnósticos).
Ainda no mesmo dia, foi realizada uma apresentação a respeito da Interdição na loucura. Discutiu-se as questões do diagnóstico para interdição, os direitos e deveres dos curadores e as formas de potencializar ou paralisar o sujeito interditado.

No último dia, foram apresentados dois vídeos na sala: o primeiro denunciando o desconhecimento da população a respeito da mudança do Hospital Adauto Botelho para Hospital Geral de Atenção Clínica, bem como opiniões diversas sobre este assunto. Pelo vídeo e pelos comentários em sala, percebeu-se que a mudança, proposta dentro do movimento antimanicomial, pode ser uma falsa solução, uma vez que o pronto socorro psiquiátrico, antes localizado no São Lucas, retornou ao antigo Adauto, local original. Ou seja, a loucura mais uma vez está colada à história do Hospital. Pelo que se percebeu, a mudança nas práticas cotidianas ainda está longe de ser efetivada e a comunidade não participa, efetivamente, de tais mudanças. Discutiu-se, ainda, a ausência da Universidade neste processo fundamental de desinstitucionalização da loucura no Estado. Atualmente, não há nenhum projeto de extensão, estágio ou pesquisa dentro dos hospitais psiquiátricos, dos CAPs ou das residências terapêuticas.
Por último, foi apresentada uma entrevista do diretor geral do Adauto Botelho, atual Hospital Geral de Atenção Clínica, na qual é possível resgatar dados sobre a história da loucura no Estado, bem como o que se entende por loucura. Foi narrada a história do diretor, importante personagem na luta antimanicomial do Espírito Santo, suas propostas e atuações com a psiquiatria comunitária no estado.
De maneira geral, os trabalhos conseguiram dar forma ao quadro atual da loucura no Estado, seus impasses, seus progressos e, mais importante ainda, os trabalhos contribuíram para analisarmos nossas implicações neste processo no que passou, no que está acontecendo e nas políticas que virão.