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domingo, 11 de julho de 2010

Ex-interno vai coordenar área de saúde mental de município no Amazonas




Da Agência Brasil   
Manaus - Aos 37 anos, Setemberg Rabelo vai votar pela primeira vez nas eleições de outubro. Portador de transtorno psíquico, ele passou anos sem direito à cidadania, escondido atrás das estatísticas de saúde mental, nos prontuários do Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, em Manaus.“A internação desqualifica você como ser humano, nos tiram coisas básicas, como olhar no espelho, vestir uma roupa que não seja coletiva. É como se doido não fosse cidadão”, compara.
Desde o primeiro surto, ainda na adolescência, até o último, há cerca de três anos, Rabelo passou por várias internações, tornou-se umas das referências na luta antimanicomial no Amazonas e está prestes a assumir a gestão de saúde mental do município de Manacapuru município da região metropolitana de Manaus.
A militância pela reforma psiquiátrica foi motivada pelo horror vivido durante as internações no hospital psiquiátrico. “Eu achava que estava preso em uma penitenciária. Demorei a me dar conta de que era um hospício, me perguntava por que fui parar ali.”
Depois da passagem pelo hospital, foi a vez do preconceito. “Você é chamado de louco. As pessoas começam a te olhar com medo, no supermercado, na fila do pão. Você vai passando e as mães pegam as crianças no colo”, lembra.
A revolta e o estigma da loucura, que afastaram Rabelo dos amigos e da convivência social, levaram-no a tentar suicídio e a pensar em matar a própria família. “Depois de tudo isso, saí denunciando, comecei a reivindicar. E foi mais ou menos na época da aprovação da lei [nº 10.216, que regulamenta a reforma psiquiátrica no Brasil]”.
Rabelo buscou o apoio do Instituto Silvério de Almeida Tundis (Isat), organização não governamental que dá suporte à reforma psiquiátrica no estado, e passou a contar sua experiência em eventos sobre saúde mental pelo Brasil e até no exterior.
Usuário de um dos centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Manaus, o ex-interno quer usar a experiência dos anos vividos atrás das grades do hospício para não repetir erros e garantir a implementação dos serviços de saúde mental de base comunitária no município de Manacapuru.
“Pensamos não só em construir Caps, nosso compromisso é implantar uma rede de cuidados. O desafio vai ser mostrar que a loucura está dentro do contexto da sociedade, que ela não pega. Se a comunidade compreender isso, as pessoas [com transtornos mentais] sofrerão menos”, avalia.
Rabelo diz que ainda é chamado de louco, mas o estigma parece não incomodar mais. “Posso dizer que sou louco pelo meu trabalho, pela minha família, pelo movimento antimanicomial, pela Amazônia”, brinca.