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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Genealogia do Capixaba é destaque com Viviane Mosé na II Semana de Psicologia da UFES

"O que nos torna “capixabas”? Esta é uma pergunta que muitos nascidos no Estado do Espírito Santo fizeram e ainda se fazem. Dentre eles está a respeitada psicóloga, filósofa e poetiza Viviane Mosé.


Uma questão incomodou Viviane Mosé quando, 26 anos atrás, começou a construir seu destino: o Espírito Santo sempre ocupou uma posição obscura no cenário nacional e se pergunta: o que fez nossa cultura ser marcada por este desconhecimento, por este isolamento? Por que, apesar de estarmos próximos dos grandes centros urbanos e industriais, numa privilegiada posição geográfica litorânea, permanecemos por tanto tempo afastados do grande fluxo econômico que marcou a costa sul e sudeste do Brasil?
Viviane precebe hoje que, ao contrário do que viveu em sua juventude, o Espírito Santo começa a aparecer como uma alternativa para o país. Nascida da lama como a flor de lótus, nossa cultura de violência e desmandos políticos ressurge como um exemplo de cidadania, gestão pública. Estamos mudando a direção de um barco centenário que insistia em encalhar na lama, mas ainda é cedo. Estamos em plena luta contra forças retrógradas e excludentes, forças desagregadoras, destruidoras que dominaram nosso estado desde os primeiros tempos, diz a filósofa.
Para contruir, Viviane Mosé escreveu um livro intitulado “A Resistência Tapuia na Capitania do Espírito Santo” e optou por um mergulho histórico, tentando apreender o nascimento e os primeiros anos de colonização do solo Espírito-santense. Um ponto parecia se destacar: em 1710 foi proibida a construção de estradas para o interior do Estado, com objetivo de preservar a mata atlântica, e também proteger o ouro de Minas Gerais dos corsários e contrabandistas. Com a medida Dom João V relegou a Capitania do Espírito Santo a um século de esquecimento.
E estudando mais profundamente o fato, a filósofa viu que na época dessa proibição a Capitania possuía território praticamente desocupado, exceto em pontos isolados do litoral. A inexistência de vilas no interior era outro fator que justificava a não construção de estradas, pois não haveria um dispositivo econômico que sustentasse as obras. Ao constatar isso, a filósofa seguiu para outro caminho: tentar compreender a razão da não ocupação do solo.
A trilha levou a escritora para uma guerra longa e sangrenta entre colonos e indígenas. Ela estudou as tribos indígenas do Brasil, e viu que o estabelecimento dos Tupi ao longo da Costa Atlântica, aconteceu pouco antes da chegada dos portugueses. Uma migração de Tupi invadiu o domínio Tapuia (no século XVIII, tapuia significava qualquer indígena de um grupo que não se integrava nas comunidades portuguesas, nem adotava o modo de vida tupi-guarani. Eles não falavam a mesma língua e continuavam avessos à civilização), expulsando-os para o interior e estabelecendo o domínio unificado pela língua Tupi-Guarani.
A tupinização dessas tribos permitiu a unificação do Brasil, na medida em que facilitou o acesso português. Os que não eram Tupi, ao contrário, eram considerados Tapuias, e a respeito deles circulavam os relatos mais assombrosos e imaginários: seriam os Tapuias os mais ferozes, antropófagos e de organização mais primitiva. Acontece que eram os tapuias que habitavam a maior parte do território capixaba. Eram falantes de línguas Macro-Gê: Goitacaz, Aimoré, Botocudo e Puri. Existiam também os Tupiniquim que eram Tupi e que viviam em constante guerra com os Tapuias.

É somente com a vinda dos jesuítas, trazendo o processo de catequese, que se torna possível a continuidade do processo de colonização. Até o início do século XIX, os colonizadores ainda lutavam para ocupar o território da Capitania, resistindo ainda em vilas litorâneas. É somente com a chegada dos imigrantes europeus, no final do século XIX, que nosso solo será efetivamente ocupado.
Na contra-capa do livro de Mosé há um trecho da obra Raízes de Brasil (1963), de Sergio Buarque de Holanda, onde ele chega a afirmar que esse hiato tapuia no litoral predominantemente tupi, provocou o desprezo da Coroa Portuguesa que não tinha interesse em investir em território de língua desconhecida. O Espírito Santo, assim como o Sul da Bahia, compunham as terras que configuravam esse hiato.
Uma das coisas que mais impressionou a filósofa foi a dificuldade que o domínio branco teve de se estabelecer aqui. Somente com a chegada dos imigrantes europeus, na segunda metade do século XIX, a população branca suplantou a indígena e a negra. A colonização do solo Espirito-santense foi lenta e tardia. Estivemos, desde o início, isolados do resto do país, fator que se reflete até hoje na subjetividade capixaba.
A escritora completa:
este isolamento quase nunca é discutido, analisado, e, quando é, parte de uma hipótese que nos coloca como passivos desprivilegiados pela coroa portuguesa; falo da interpretação corrente de que estivemos afastados do fluxo econômico e cultural do resto do país para servir de barreira de proteção às Minas Gerais. Mas esta proibição, de construir estradas para o interior, que de fato aconteceu, não pode, por si só, responder pelo vazio a que ficamos relegados. Quando a proibição aconteceu já estávamos isolados, despovoados, sem uma atividade econômica que justificasse a construção de uma estrada. Talvez a Capitania do Espírito Santo seja a representante da maior resistência indígena em solo brasileiro."