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domingo, 14 de março de 2010

SURTO PSICÓTICO

AMADOS E ADAS,
nao era minha intençao postar tanto sobre doenças mentais e luta antimanicomial, mas este blog tomou este rumo...
bom, vamos lendo... estou pensando em separar um blog do outro.. o que acham?
beijuzz

A Gota D'Água(retirado do blog delirio coletivo o blog do dayan )


 Desvendando o surto psicótico.Marina Ferreira & Danielle Sibonis
Reportagem realizada em Junho de 2007



Todos os dias, João vai com seu carrinho para a faculdade. O carro já
está um tanto fragilizado, mas realiza o percurso com sucesso. Um dia,
João decide subir a Serra com seu carrinho, porém a tarefa exige muito
mais do automóvel do que ele estava acostumado, e por isso ele quebra.
Imagine agora que o carrinho do João não é mais um automóvel, mas a
mente dele. A faculdade é a rotina de João. E a subida da Serra é uma
situação nova, que exige muito mais da mente de João do que ele estava
habituado. Assim como o carro quebrou, a mente de João pode entrar em
colapso ao passar por circunstâncias que desestabilizem sua psique já
comprometida. Este colapso seria o que comumente se conhece por surto
psicótico.

Esta é a história de João, mas poderia ser a de qualquer pessoa. O
surto psicótico não discrimina; atinge a todas idades, gêneros, etnias
e grupos sociais. Embora a palavra 'surto' já tenha se tornado uma
expressão de uso corriqueiro, poucas pessoas compreendem o que ela
significa de fato. “O surto psicótico ocorre, basicamente, quando uma
psique já fragilizada entra em colapso, ou seja, em completo
desequilíbrio”, explica o psicólogo Edílson Pastore da Clínica Pinel.
Para os psicólogos, o surto não é algo isolado; um conjunto certo de
critérios caracteriza uma crise psicótica. Delírios, alucinações
comportamento desorganizado e discurso desorganizado são sintomas
obrigatórios. Para Pastore, devem estar presentes pelo menos dois
destes para classificar o estado como um surto psicótico. O psicólogo
também apresenta uma diferenciação entre delírios e alucinações,
conceitos que são constantemente confundidos. “Delírios são alterações
do pensamento que se caracterizam por idéias que não condizem com a
realidade objetiva”, enquanto que “alucinações envolvem sempre algum
órgão senso-perceptivo, como a audição, a visão, o tato, o olfato e a
sinestesia (sensações internas). Elas não são invenções – a pessoa
realmente está vendo, ouvindo ou sentindo aquilo”. Ou seja, o primeiro
ocorre na mente e o segundo atinge os sentidos.
Do ponto de vista psiquiátrico, o surto psicóticos está relacionado a
uma distorção dos neurotransmissores, ou seja, das substâncias
químicas produzidas pelos neurônios e que são responsáveis pelo envio
de informações a outras células. “O pensamento tem um curso e um
conteúdo, quando o conteúdo do pensamento está desagregado, ele perde
conexão com a realidade ou então ele distorce a realidade, ele passa a
ser um sintoma de surto psicótico”, explica a psiquiatra Clarissa

Severino Gama do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. A dopamina é
considerada um neurotransmissor chave da teoria neuroquímica da
esquizofrenia e das psicoses em geral. Além dela, há uma série de
outros neurotransmissores envolvidos, porém os mecanismos destes ainda
não são profundamente conhecidos, estando em fase de estudos, como o
glutomato e a serotonina.

Subindo a Serra (As Causas)
Os motivos que levam a um surto psicótico são diversos e podem variar
de pessoa para pessoa. O que é comum entre os surtos é o fato de serem
“a gota d'água”, de acordo com o psicólogo Eduardo Xavier do Hospital
Psiquiátrico São Pedro. A crise se origina em pessoas que já possuem
uma certa fragilidade psicológica, ou seja, é algo que vai crescendo.
Muitas vezes começa de forma incipiente e vai se intensificando até
que finalmente leva a pessoa a surtar.
Psicoses como a esquizofrenia, abusos de drogas, crises de abstinência
de substâncias e alguns transtornos afetivos como a bipolaridade
(antigo transtorno maníaco-depressivo) são causas bastante comuns de
surtos. Existem, porém circunstâncias pontuais que desencadeiam a
crise em pessoas as quais aparentemente não seriam um alvo óbvio.
Fatos marcantes, como a morte de um ente querido, distúrbios de
estresse pós-traumático e mudanças de rotina abruptas podem levar uma
pessoa a psicotizar.
Alguns surtos decorrem de causas orgânicas. “Traumatismo
crânio-encefálicos, doenças como o lupus ou tumores cerebrais podem
ser responsáveis por crises. Também pacientes com demências como
senilidade, Alzheimer e Parkinson podem psicotizar, porque essas
pessoas começam a ficar confusas, desorientadas, agitadas, não
reconhecem mais a sua casa, a sua família, e isso pode ocasionar uma
desorganização mais grave”, exemplifica Edílson Pastore.



Para a psiquiatra Clarissa Gama, a psicose tem um fundo neuroquímico
bastante importante, embora o ambiente, o estresse, a existência de
casos de psicose na família, as doenças que prejudiquem o
funcionamento do cérebro são fatores que podem levar a uma crise.
No geral, os psiquiatras vêem o surto quase sempre como parte de uma
doença objetiva. Já os psicólogos, acreditam que haja uma doença de
base, exceto no caso de surtos induzidos pelo uso de drogas.

Os Carrinhos Frágeis (Grupos de Risco)



O surto pode atingir qualquer pessoa, sem distinção de idade, sexo e
grupo social, basta que se tenha uma estrutura psíquica predisposta a
isso. Existem, entretanto, grupos de risco, fases na vida em que há
maiores chances de entrar em crise. O final da adolescência e o início
da idade adulta são fases mais propícias porque certas doenças mentais
irrompem tipicamente nesta idade, como a esquizofrenia cujos sintomas
se manifestam (nos rapazes) entre os 15 e 20 anos. Nestas fases são
típicas grandes mudanças na vida como ir morar sozinho, mudar de
cidade, servir no quartel, começar a trabalhar. Nestes casos, se a
pessoa é psicologicamente mais frágil, pode haver um surto psicótico.



O caso dos surtos em rapazes que vão servir no quartel é um exemplo
recorrente entre os entrevistados. Eduardo Xavier explica: “o rapaz
faz 18 anos e tem de entrar no quartel. O quartel é lugar de homem,
lugar de 'macho', toda aquela questão de mostrar virtudes e coragem,
de ser um entre tantos capaz de servir à pátria. São muitas
significações que convocam a pessoa de uma maneira muito forte”. Se o
rapaz é uma pessoa mais frágil, a mudança abrupta de rotina e de
ambiente e, especialmente, o dia-a-dia- de um quartel, podem fazê-lo
psicotizar.



Pessoas com retardo mental também podem surtar, de acordo com Pastore.
“Elas tem pouco desenvolvida a capacidade de abstração e simbolização,
e podem não conseguir se relacionar com grupos sociais e interpretar
piadas e brincadeiras, o que os levam a se isolar e freqüentemente,
ntrar em crise”. Crianças e jovens submetidos a situações de muito
estresse também são alvo de crises psicóticas.



Relação entre o surto e as drogas

Estudos estão sendo realizados para descobrir qual a relação das
drogas com os surtos. Muitas pessoas não possuem nenhuma psicose, mas
ao utilizarem drogas e outras substâncias psicoativas, iniciam uma
crise psicótica induzida. As drogas desencadeiam comumente crises
psicóticas são crack, cocaína e ácidos (incluindo o LSD). O álcool e a
maconha têm menor relação com a decorrência de surtos. No caso do
álcool, a crise só ocorre quando este é consumido em altas doses. A
pessoa toma um “porre” e entra em agitação psicomotora, fica
desorganizada, agressiva.
O surto induzido pode ocorrer em pessoas que nunca utilizaram a
substância antes e estão experimentando-a pela primeira vez. “Nesses
casos, normalmente a pessoa precisa já ter uma propensão à doença”
lembra Edílson Pastore. A droga serve como desencadeante para a
perturbação e os sintomas duram enquanto a droga estiver no organismo
do indivíduo. Muitas vezes ela apenas inicia a primeira crise. Depois,
a pessoa passa a ter surtos mesmo sem a utilização da droga. Eduardo
Xavier destaca que as drogas têm o mesmo poder de ser a “porta” que
permite o desencadeamento de uma crise assim como o Carnaval e a
violência, “porque essas são situações que convidam as pessoas a
usarem parte de suas mentes que elas não usam normalmente”.



Tratamento


“A primeira preocupação é com a segurança do paciente, ou seja,
deve-se ajudar a pessoa a se sentir segura. Dizer 'olha, alguma coisa
perturbou em ti, tem alguém contigo, tu está bem, pode dormir'”,
aconselha o psicólogo Eduardo Xavier, o qual também acredita que,
embora neste período de surto a pessoa possa falar muitas asneiras,
coisas que não condizem com a realidade, é importante ouvir porque “o
que emerge às vezes deste psiquismo alterado são coisas sem sentido,
mas que mesmo assim precisam serem faladas, precisam serem ouvidas”. A
medicação é essencial para o controle da crise. Os remédios
antipsicóticos agem nas vias da dopamina. A risperidona, a clozapina,
a olanzapina são os antipsicóticos mais utilizados. O haloperidol e o
haldol, embora ainda sejam usados, estão perdendo espaço para os mais
modernos porque têm alguns efeitos colaterais mais significativos como
enrijecimento muscular, impregnação (enrijecimento brusco de algum
membro) e salivação. “Os medicamentos modernos provocam sonolência e
deixam a pessoa mais prostrada, mas são efeitos que não se comparam ao
dos antipsicóticos mais antigos”, justifica Edílson Pastore. À medida
que os sintomas vão desaparecendo, a medicação vai sendo retirada. No
caso da crise psicótica ter sido induzida, não é necessária a
medicação, bastando afastar a pessoa das drogas para que ela se
reabilite. Hoje em dia, as internações são breves, somente enquanto
durar a crise, cerca de dez ou quinze dias.

Após este primeiro momento, trabalhos em grupo e reuniões são
acessórios para o tratamento, “o problema é que quando a pessoa está
muito frágil, ela não agüenta coisas muito diferentes das dela”,
afirma Eduardo Xavier, por isso nem sempre a pessoa surtada pode
participar de grupos de apoio. “O mais importante são os remédios,
pois o surto constituí também uma alteração bioquímica grave”, lembra
o psicólogo Edílson Pastore.

As sessões de terapia são importantes para identificar se a crise está
iniciando uma doença mental, como no caso da uma esquizofrenia ou de
um transtorno afetivo (bipolar, obsessivo-compulsivo etc). Se for
confirmada a hipótese, a pessoa precisará realizar o tratamento a vida
inteira, pois nestes casos não há cura.
Se o surto tiver um causa específica, um evento, um acontecimento e se
esta causa se extinguir, pode ser que a pessoa se recupere sozinha
(por exemplo: um homem que entra em crise após a morte do filho).
“Muitas vezes tudo que a pessoa precisa é de tempo para se recuperar
da perturbação”, afirma Pastore, que também acredita na cura completa
do surto, mas destaca que ela depende de fatores como a idade, as
condições clínicas, a pessoa em si e o que causou o surto