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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O tráfico de dependentes Paulo Bonates




No início dos anos 1980, eu dirigia o Manicômio Judiciário do Estado, um hospital ligado à Secretaria de Justiça destinado a diagnosticar e tratar pessoas que cometiam crimes. Nessa época, a questão que norteava a política de atenção a drogadependentes era separar os traficantes dos usuários, pois ambos os grupos eram trancafiados em presídios comuns, já que não se enquadravam na categoria de doentes mentais.
Foi então que com dispêndios e manhas construímos a Unidade de Tratamento de Drogadependentes, com a finalidade de operar como hospital-dia, atendendo a usuários e familiares. Funcionou nessa proposta. Mas foi apenas um avanço político. Pouco depois que saí, a unidade foi desativada não sei bem por quê. A complexidade dessa questão é o principal sintoma da doença. É o reconhecimento do tráfico de drogas como uma via financeira importante na bizarra geração de emprego para incontáveis famílias miseráveis que chegam diariamente aos guetos fugindo da fome e da morte.

Rapidamente instalam-se precários e apressados serviços, a maioria ligados à farsa, nutridos pelo dinheiro das famílias. Concorrem com as legítimas e esforçadas tentativas, algumas ligadas à academia. São traficantes de dependentes. Um colega me contou que diabetes só pode ser suficientemente controlada se o paciente for tratado "na barriga da mãe". Isso é, quando todos podem entreolhar-se, expor ideias, proteger-se e alertar para a obesidade.

Diria o mesmo na questão das drogas. Depois que uma pessoa torna-se dependente de álcool, maconha, crack, cocaína e até cigarro de nicotina, entre outros, a família dispõe-se a reunir-se. E diante desta emergência, procuram os consultórios, clínicas ou ONGs, mas aí pode-se fazer muito pouco. O mesmo acontece nas instituições encarregadas de repressão, as polícias, ou no amparo.

Aliás, por que não se proíbe, por exemplo, o cigarro de nicotina, tão nocivo mental e fisicamente quanto as drogas ilícitas? Incluiria aí alguns medicamentos psicoativos largamente prescritos, inclusive por profissionais sem a necessária formação em psiquiatria. Falando em droga, não se deve esquecer que até o ex-presidente Fernando Henrique arrancou de seu cérebro a ideia da descriminalização das drogas, atacando com isso o lucro.

Mas o âmago da questão continua: o uso suicida dessas substâncias é, sim, consequência de um sistema complexo, e o simples enjaulamento em clínicas ou a ingênua e promocional terapêutica com mais drogas são medidas no mínimo ingênuas. A dependência é uma consequência, e não causa.

Paulo Bonates é médico psiquiatra